A poesia de Hilal Sami Hilal



Fernando Pessoa escreveu em um poema:

“Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho.”


Essas frases descrevem claramente a alma de um artista, a alma de Hilal Sami Hilal. Na busca incessante por um poema perfeito, Hilal vai além das palavras e com seus livros sem textos, enche as pessoas de emoções.


As mudanças que ocorrem em um artista podem ser observadas no desenvolvimento de sua obra. No caso de Hilal, sua primeira expressão artística veio na forma de simples aquarelas, mas muitas transformações ocorreram em seu pensamento e alma e o papel, que era suporte, se transforma em obra.


A fabricação de papel artesanal e o uso dele como obra em si mesmo abre uma nova janela de possibilidades para Hilal. Usando como base uma pasta de algodão feita com roupas de seus amigos e familiares, o artista transfere a história e lembranças contidas nesses objetos para suas obras. Esse processo se dá apenas um ano após se formar em artes plásticas (1976) na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), local onde se inicia e se mantém como professor até 1996, quando, então, passa a se dedicar exclusivamente às artes plásticas.


Na busca de mais conhecimentos sobre a manufatura de papel, em 1981, embarca para o Japão onde estuda novas técnicas e fórmulas para desenvolver polpas que o permitiriam fazer novas obras em papel. Durante a década de 1980, Hilal continua usando trapos de algodão agregados a pigmentos e folhas de ouro para criar seus trabalhos.


(Leão e Dragão, 1986, trapo de algodão e folha de ouro, 1,4x4m)


Na década de 1990, o artista, nascido em Vitória (ES) e descendente de família síria, busca no constante intercâmbio cultural entre Oriente e Ocidente novas inspirações para seu trabalho. O contraste entre o novo e o velho, entre o presente e o passado, também se transforma em uma referência recorrente. Segundo a crítica de arte Neusa Mendes, a justaposição de épocas, símbolos e culturas cria uma nova e estranha mitologia e arquétipos universais.


(Livro Gentileza, 2012, cobre/corrosão)


Durante esse período, pode ser observada uma relação com o gestualismo, forma de pintar que teve como grande nome o norte americano Jackson Pollock (1912 - 1956). Alguns pintores desse movimento inventaram verdadeiras escritas pessoais, fazendo sinais gráficos ao longo da superfície da tela. Pollock colocava a tela no chão e, sobre ela, ia despejando a tinta com diversos tipos de objetos o que permitia um certo controle sobre a pintura.


(na esquerda Jackson Pollock, na direita Hilal Sami Hilal)


Da mesma forma, Hilal, que usa uma bisnaga de confeiteiro repleta de pasta de papel, usa o chão como base de seu trabalho e, no gesto usado para desenhar, transforma-a em um rendilhado. Esse traçado cheio de referências e significado lembra a caligrafia e a arquitetura árabes. No entanto, vai muito além do puro simbolismo quando invoca em sua forma e textura uma relação direta com o tempo.


Esses trabalhos que impressionam pela beleza, mesmo os de grandes formatos ainda que de uma leveza espetacular, abrem novas portas para Hilal. A partir de então, já teve sua obra já foi exibida em vários países como Líbano, Alemanha, Espanha, França e Estados Unidos. No Brasil, participou de exposições no Museu de Arte Moderna de São Paulo e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, dentre outros.




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